Corra
Poucos filmes são capazes de incutir no telespectador uma vontade de assisti-lo “pela primeira vez novamente”. Essa afirmação pode parecer confusa, mas quem é que não gostaria de assistir Clube da Luta sem conhecer a história só para poder se surpreender com o final novamente? Ou de conhecer a ambiguidade de Alex em Laranja Mecânica estando alheio ao que o personagem é capaz de fazer? É gratificante dizer que Get Out é um desses filmes, que faz você sentir inveja de um amigo que nunca viu.
Um jovem rapaz negro viaja para conhecer a família de sua namorada branca, já receoso do possível racismo dos pais da garota contra ele. Mas a experiência acaba se mostrando ainda mais perturbadora do que o rapaz (ou você) poderia imaginar.
A direção e o roteiro mostram uma maturidade que poucos filmes são capazes de manter, o que é impressionante considerando que este é o primeiro longa do diretor e roteirista Jordan Peele. Digo maturidade porque o filme poderia ser facilmente estragado com um deslize, mas por mais que esperemos por ele, é difícil de encontrá-lo. É uma obra dosada, e por isso considero a direção tão determinada. Jordan Peele segura a ansiedade do telespectador até literalmente o último segundo, sem mostrar demais e deixar a trama previsível, ou mostrar de menos e tornar o filme desinteressante. Os elementos são inseridos gradativamente na narrativa, de forma que a curiosidade chega quase a te fazer querer adiantar o filme pra saber o vai acontecer.
Eu comecei achando que estava assistindo a um filme moralista que quer te ensinar alguma coisa sobre racismo. Até que a suspeita que moralista é uma palavra demasiadamente suave para descrever o que estava assistindo veio à minha cabeça, e que alguma coisa muito estranha estava para acontecer. Mesmo assim, tentei desvendar o mistério, me convencendo de que não há como o roteiro me levar pra muitas outras saídas. Mas conforme mais acontecimentos vão se desenrolando, percebi que não tinha a menor ideia do que aquele filme estava tentando me dizer. A partir daí minha curiosidade se tornava cada vez mais crescente e, ao final do filme, estava a ponto de sair gritando por não acreditar no que eu tinha acabado de assistir.
Tudo isso sustentado por um elenco muito bem escalado. Bradley Whitford e Catherine Keener fazem os pais da namorada do rapaz, os dois acompanham as transições de personalidade, exigidas pelo roteiro, com uma naturalidade aparentemente simplista, mas que contém várias camadas desenvolvidas. Os empregados da mansão te deixam com uma pulga atrás da orelha, com destaque para Betty Gabriel, que tem um monólogo bastante perturbador. A Allison Williams faz tudo certinho e você acredita em sua personagem mesmo quando todas as circunstâncias já não são mais favoráveis e o filme começa a soltar os ligamentos que ligam seu queixo à cabeça. Já o Caleb Landry faz um personagem sem tanta importância e o Lil Rel é muito destoante com o tom do filme, por ser uma espécie de alívio cômico desnecessário.
O protagonista, Daniel Kaluuya, merece um parágrafo só para ele. Ele é praticamente o reflexo exato do telespectador, como se você estivesse se olhando no espelho e vendo suas incertezas estampadas no rosto do ator. A sutileza no início, inseguranças pelo segundo ato e o pavor no terceiro são realçadas por transições críveis, marcadas por seus olhos profundamente interpretativos.
Quando terminei de assistir Get Out me peguei pensando muito sobre o filme, o que me deu uma certeza que estava diante não de um longa comum que esqueceria em algumas semanas ou meses, eu estava diante de um futuro clássico. Inclusive consigo até imaginar cinéfilos conversando e atribuindo valores de um David Fincher à Jordan Peele.

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